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| Fonte: Blog Contramão Fitness |
No Dia Internacional da Mulher, é muito comum recebermos flores, homenagens, mensagens carinhosas e aquele tradicional “parabéns pelo seu dia”.
É bonito? Sim.
Mas, enquanto recebemos flores e mensagens nas redes sociais, existe uma pergunta que quase ninguém faz:
Como estão, de verdade, as mulheres que estão passando pela menopausa?
Será que todas estão felizes, realizadas e vivendo uma “nova fase maravilhosa” da vida?
Ou será que muitas estão apenas tentando atravessar mais um dia?
É sobre essa realidade — a menopausa em mulheres reais — que quero falar neste post.
Dia Internacional da Mulher: além das flores e homenagens
Homenagear uma mulher é fácil.
Uma mensagem pronta no WhatsApp, uma imagem bonita nas redes sociais, algumas flores e pronto: “Feliz Dia da Mulher!”.
Mas o que acontece nos outros 364 dias do ano?
É nesses dias que muitas mulheres continuam trabalhando, cuidando da casa, dos filhos, dos pais, do marido, dos netos e de tantas outras responsabilidades.
E algumas fazem tudo isso enquanto enfrentam ondas de calor, insônia, alterações de humor, cansaço, dificuldade de concentração, alterações sexuais e diversas outras manifestações que podem ocorrer durante o climatério e a menopausa.
Muitas vezes, porém, ninguém percebe.
Ou pior: percebem e interpretam de outra maneira.
“Ela está estressada.”
“Está nervosa.”
“Precisa descansar.”
“Isso é da idade.”
“É normal.”
Mas será que simplesmente dizer que é “normal” significa que a mulher precisa sofrer calada?
Não deveria.
Menopausa em mulheres reais: a diferença entre informação e acesso
Nos últimos anos, a menopausa ganhou muito mais espaço na internet.
Hoje encontramos médicos, especialistas, influenciadoras e mulheres famosas falando sobre climatério, menopausa, sintomas e tratamentos.
Isso é positivo.
Durante muito tempo, esse assunto foi praticamente escondido.
Mulheres atravessavam essa fase sem informação e muitas sequer sabiam que determinados sintomas poderiam estar relacionados às mudanças hormonais.
Hoje temos podcasts, vídeos no YouTube, Instagram, palestras e inúmeros conteúdos sobre o assunto.
Mas existe uma questão que me incomoda profundamente:
Informação sem acesso ao tratamento resolve o problema de quem está sofrendo?
Para algumas mulheres, talvez a resposta seja sim.
Para muitas outras, não.
Quando o tratamento parece estar tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe
É aqui que entra uma questão delicada: o acesso ao tratamento da menopausa.
Nas redes sociais, podemos assistir a especialistas explicando diferentes possibilidades terapêuticas.
Eles falam sobre terapia hormonal, medicamentos, acompanhamento médico, exames, atividade física, alimentação e mudanças no estilo de vida.
Tudo parece muito simples, até chegar a hora de colocar isso em prática.
Quanto custa uma consulta particular?
Quanto custam os exames?
Quanto custam os medicamentos?
E os retornos?
E o acompanhamento ao longo do tempo?
Para uma mulher que possui condições financeiras, talvez seja possível montar uma rotina de cuidados com diferentes profissionais.
Mas e para quem depende exclusivamente do sistema público? Essa é uma discussão que precisa ser ampliada.
A minha experiência com a pós-menopausa
Falando especificamente da minha experiência, classifico minha pós-menopausa sem um tratamento que resolvesse adequadamente os meus sintomas como uma espécie de limbo.
E não digo isso para afirmar que todas as mulheres terão a mesma experiência. Muito pelo contrário.
Cada mulher é única.
Cada histórico de saúde é diferente. Cada organismo responde de uma maneira. E uma terapia que pode ser considerada para uma mulher pode não ser apropriada para outra.
Mas existe algo que ninguém deveria minimizar: o sofrimento de uma mulher que está tentando encontrar uma maneira de se sentir melhor.
Em diferentes momentos, procurei atendimento pelo SUS buscando orientação sobre tratamento hormonal.
Nas consultas que tive, recebi determinadas orientações e, em duas ocasiões, foi prescrita uma medicação específica para ajudar no controle dos sintomas.
Isso faz parte da minha experiência pessoal e não significa que essa medicação seja indicada ou contraindicada para todas as mulheres.
Tratamento para menopausa precisa ser individualizado e avaliado por um profissional de saúde.
O que eu questiono é outra coisa: Por que ainda é tão difícil para algumas mulheres encontrar informação, acolhimento e acompanhamento adequado?
O que me ajudou e vem me ajudando bastante é a atividade física. Fale com seu médico sobre o assunto. Veja: Qual a Melhor Atividade Física Depois dos 50 Anos?
Terapia hormonal da menopausa: não é simplesmente “tomar hormônio”
Existe muita confusão quando falamos em terapia hormonal da menopausa (THM).
Ao longo dos anos, estudos e mudanças nas evidências contribuíram para uma compreensão mais detalhada dos benefícios e riscos da terapia hormonal da menopausa.
Mas a realidade é mais complexa.
A terapia hormonal não é indicada para todas as mulheres.
Ela possui benefícios, riscos, contraindicações e diferentes formas de utilização, que precisam ser avaliados individualmente.
Idade, tempo desde a menopausa, sintomas, histórico pessoal e familiar, doenças preexistentes e outros fatores podem influenciar essa decisão.
Por isso, não é correto dizer simplesmente:
“Reposição hormonal causa câncer.”
Da mesma forma, também não é correto dizer:
“Todas as mulheres deveriam fazer reposição hormonal.”
Nenhuma dessas frases representa adequadamente a complexidade do assunto.
O que deveria existir é uma conversa individualizada entre mulher e profissional de saúde, baseada em evidências e levando em consideração a realidade daquela paciente.
Especialistas em menopausa nas redes sociais
Hoje acompanhamos médicos renomados nas redes sociais falando sobre menopausa.
Alguns profissionais produzem conteúdos excelentes e ajudam a tirar esse assunto do silêncio.
Não tenho nenhuma intenção de desmerecer esses profissionais.
Eles estudaram, construíram suas carreiras e possuem conhecimento para compartilhar.
O problema está em outra parte: o acesso.
Uma coisa é assistir gratuitamente a uma explicação sobre menopausa no YouTube.
Outra completamente diferente é conseguir consultar aquele especialista, realizar todos os exames solicitados, comprar os medicamentos e manter o acompanhamento.
Eu mesma tive essa curiosidade.
Em 2025, entrei em contato com uma médica que produz conteúdo na internet e atende em uma região nobre de São Paulo. Perguntei quanto custava uma consulta.
Na ocasião, o valor informado para aquela consulta específica era de R$ 950,00. E isso era somente o começo.
Ainda existiriam exames, medicamentos, retornos e todo o acompanhamento necessário.
Para algumas pessoas, esse valor pode ser possível. Para muitas mulheres brasileiras, infelizmente, não é. E é justamente aí que aparece uma enorme desigualdade.
A menopausa não deveria ser romantizada
Talvez uma das coisas que mais me incomodem seja a maneira como a menopausa às vezes é apresentada.
“É uma nova fase linda.”
“Estou me redescobrindo.”
“É a melhor fase da minha vida.”
“Precisamos acolher essa fase.”
Tudo bem. Se uma mulher realmente está vivendo a menopausa dessa maneira, ótimo.
Ela tem todo o direito de se sentir assim.
O problema começa quando essa experiência é apresentada como se fosse universal.
Porque existem mulheres que estão sofrendo, mulheres que não dormem direito, mulheres que acordam várias vezes durante a noite.
E ainda, mulheres que enfrentam ondas de calor, fadiga, mudanças emocionais e dificuldades que interferem no trabalho, nos relacionamentos e na qualidade de vida.
Mulheres que procuram ajuda e não conseguem, mulheres que dependem do serviço público, mulheres que não podem pagar uma consulta de centenas de reais.
Para essas mulheres, ouvir constantemente que a menopausa é uma “fase maravilhosa” pode provocar ainda mais sensação de isolamento.
A menopausa pode ser uma fase positiva para algumas e extremamente difícil para outras.
As duas experiências podem existir ao mesmo tempo.
“Isso é da idade”
Essa talvez seja uma das frases mais perigosas quando usada para encerrar uma conversa.
“É da idade.”
Mas o que significa isso?
Que a mulher deve simplesmente aceitar qualquer sintoma?
Que ela precisa parar de reclamar?
Que não merece investigação?
Que deve abandonar sua qualidade de vida?
Envelhecer faz parte da vida.
A menopausa também.
Mas envelhecer não deveria significar desistir de cuidar da saúde.
Quando um sintoma incomoda, interfere na rotina ou provoca sofrimento, merece ser conversado com um profissional de saúde.
Mesmo quando determinado sintoma faz parte de uma transição natural do organismo, isso não significa que a mulher precise simplesmente suportá-lo sem orientação.
E quando ninguém quer ouvir?
Existe ainda uma dimensão que não aparece nos exames.
É a dimensão emocional.
Muitas mulheres passam a ouvir:
“Você está muito nervosa.”
“Você está diferente.”
“Você está mal-humorada.”
“Tudo agora é motivo para reclamar.”
Só que ninguém pergunta:
“Você está bem?”
Essa pergunta pode parecer simples.
Mas, para uma mulher que está enfrentando mudanças físicas e emocionais, pode significar muito.
Precisamos falar mais sobre isso.
Não para transformar todas as mulheres em vítimas.
Não para colocar toda alteração emocional na conta da menopausa.
Mas para reconhecer que essa fase pode trazer desafios que merecem atenção.
Direitos das mulheres não existem somente no dia 8 de março
No Dia Internacional da Mulher, falamos muito sobre direitos.
Falamos sobre igualdade, respeito, saúde, trabalho, independência e dignidade.
Mas esses direitos não desaparecem no dia 9 de março, eles continuam existindo durante todo o ano.
Inclusive quando a mulher chega aos 45, 50, 55, 60 anos ou mais.
A mulher madura continua tendo direito à informação, continua tendo direito a atendimento em saúde.
Continua tendo direito de perguntar, de procurar ajuda, de ser ouvida.
E continua tendo direito de falar:
“Eu não estou bem.”
Sem ser imediatamente chamada de exagerada, estressada, chata ou insuportável.
Menopausa e saúde pública: precisamos ampliar essa conversa
Não estou dizendo que o SUS não ofereça nenhum atendimento para mulheres na menopausa.
O SUS possui serviços de atenção à saúde da mulher e diferentes formas de atendimento.
A questão é outra: será que podemos avançar ainda mais?
Será que podemos ampliar o acesso à informação? Capacitar cada vez mais profissionais? Fortalecer o atendimento especializado quando necessário?
Melhorar o acesso à investigação dos sintomas? Oferecer acompanhamento adequado e baseado em evidências?
A menopausa precisa ser tratada como uma questão de saúde e qualidade de vida, e não simplesmente como uma etapa que a mulher deve suportar em silêncio.
O tratamento da menopausa precisa considerar a mulher real
Quando falamos sobre tratamento, precisamos sair do mundo perfeito das redes sociais.
A mulher real tem orçamento, fila de atendimento, trabalho, filhos, responsabilidades, tem outras doenças, tem medo, dúvidas.
Às vezes não consegue comprar determinado medicamento, não consegue pagar uma consulta particular, passa meses esperando uma consulta e, mesmo assim, continua vivendo.
Por isso, falar sobre tratamento da menopausa também significa falar sobre acesso. Não basta dizer para uma mulher:
“Converse com seu médico.”
Precisamos pensar também em como garantir que ela consiga chegar ao médico, ser ouvida e ter acesso ao cuidado necessário dentro das possibilidades do sistema de saúde.
Menopausa não é uma doença, mas os sintomas podem afetar profundamente a vida
É importante fazer uma distinção.
A menopausa é uma etapa natural da vida feminina. Ela não é, por si só, uma doença, mas isso não significa que seus sintomas sejam insignificantes.
Quando sintomas relacionados ao climatério ou à menopausa interferem na vida cotidiana, eles merecem atenção.
Além disso, o período após a menopausa está associado a mudanças no organismo e a alterações nos fatores de risco para diversas condições de saúde.
Por isso, cuidar da mulher nessa fase não deveria se resumir ao controle das ondas de calor.
É também falar sobre saúde cardiovascular, saúde óssea, saúde sexual, sono, saúde mental, atividade física, alimentação e prevenção de doenças, sempre considerando as necessidades individuais. (Fonte: National Library of Medicine)
Nós não precisamos de super poderes
Durante muito tempo, mulheres aprenderam a suportar.
Suportar a dor, o cansaço, as mudanças, o trabalho, a família. Suportar tudo!
Mas nós não temos superpoderes e não precisamos fingir que temos.
Se estamos cansadas, precisamos poder dizer.
Se estamos sofrendo, precisamos poder falar.
Se não estamos bem, precisamos poder procurar ajuda.
E se não conseguimos acesso ao tratamento de que precisamos, precisamos poder questionar.
Conclusão: uma menopausa para mulheres reais
A menopausa em mulheres reais não é uma experiência única.
Para algumas, pode representar liberdade, amadurecimento, novas descobertas e uma fase muito positiva.
Para outras, pode ser acompanhada de sintomas difíceis, insegurança, dificuldades financeiras e falta de acesso ao atendimento que procuram.
Uma experiência não invalida a outra.
O que precisamos evitar é transformar uma realidade particular em uma regra para todas as mulheres.
Não basta publicar uma mensagem bonita no Dia Internacional da Mulher.
Não basta colocar flores em uma foto.
Não basta dizer “você é forte”.
Precisamos ouvir as mulheres.
Precisamos falar sobre menopausa durante todo o ano.
Precisamos ampliar o acesso à informação de qualidade.
Precisamos discutir o atendimento oferecido às mulheres no sistema público de saúde.
Precisamos combater o preconceito contra o envelhecimento feminino.
E precisamos entender que tratamento não significa necessariamente terapia hormonal. Significa avaliar cada mulher individualmente e buscar, com acompanhamento profissional, as melhores estratégias para sua saúde e qualidade de vida.
A menopausa não precisa ser romantizada e também não precisa ser tratada como o fim da vida.
Ela precisa ser compreendida.
Porque existem milhões de mulheres vivendo essa fase de maneiras diferentes.
E algumas delas estão simplesmente pedindo para serem ouvidas.
Nós mulheres não temos super poderes.
Pensem nisso.
Até o próximo artigo, bonita!
